CONCLUSÕES
A realização do I Fórum da Cultura na Madeira proporcionou um tempo de reflexão, encontro e debate bastante positivos, o que foi reconhecido por todos os participantes. Para além da elevada afluência de agentes culturais e representantes dos múltiplos sectores de actividade que operam na área da cultura, ficou como um dado relevante a oportunidade e interesse dos temas apresentados, bem como a importância de, com alguma regularidade, se retomar uma iniciativa deste cariz, mesmo que sob outra forma, ou com perspectivas de análise mais específicas. Ficou claro, portanto, que estava fazendo falta um momento como este, onde o encontro e o diálogo são uma mais-valia para os intervenientes e para o sector.
Assim, relativamente ao I Fórum da Cultura na Madeira, podemos formular, de forma necessariamente sucinta, as seguintes Conclusões:
1. A programação cultural faz-se, hoje, num horizonte cada vez mais aberto - intercomunicação entre o global e o local -, sendo uma tarefa que exige conhecimento e profissionalização. Há que saber conjugar tradição e inovação. Se aquilo que se faz e se programa é cultura, é tarefa dos programadores e da tutela ajudar a descobrir ou alcançar a vocação universal do acto ou da criação cultural, procurando ultrapassar o ensimesmamento por vezes tão comum à “pequena dimensão” que nos cerca. E que redunda, por vezes, numa programação repetitiva, ou com sobreposições, o que enfatiza a necessidade de haver uma coordenação mais exigente.
2. Os centros culturais traduziram um boom de investimentos materiais na área da cultura e são importantes para estruturar uma programação, que deverá ser sustentada e coerente, apontando para uma regularidade de práticas culturais que devem visar a formação e crescimento dos públicos. A não adequação técnica de alguns espaços existentes na Região, a práticas como a música e o teatro, recomenda a necessidade de este tipo de projectos serem elaborados com mais rigor e atenção ao fim a que se destinam, sem omitir a consulta prévia aos responsáveis do respectivo sector.
3. A cultura tem, pela sua natureza, uma relação que deveria ser íntima e produtiva, com a Escola e a Universidade, sendo positivo tudo o que, de forma criteriosa, contribua para incentivar o conhecimento e a incorporação à cultura dos saberes temáticos e científicos oriundos do espaço da universidade. No binómio Educação-Cultura, este pressuposto é de verificação obrigatória no caso da educação artística (que pode dar um contributo decisivo na formação de públicos desde a mais tenra idade, mas também no apetrechamento técnico dos agentes culturais). Mas, tendo a Escola e a Universidade, ainda, uma forte dimensão de “reprodução”, a sua abertura, institucional e prática, à área da cultura, contribuirá para quebrar rotinas instaladas e introduzir novas perspectivas críticas e novos horizontes de acção.
4. A questão da profissionalização dos programadores e dos agentes culturais é uma implicação que se torna cada vez mais óbvia a quem faz cultura: lidar com estas matérias, que têm regras e códigos específicos, exige conhecimentos adequados e uma compreensão das “disciplinas” próprias de actuação em cada caso (há técnicas e exigências a respeitar quando se pretende fazer uma exposição, editar um livro, levar à cena uma peça, ou dar um concerto). Até porque passa, também, por aí, a legitimação da obra de arte, ou do acto cultural.
5. O mercado é um parceiro estratégico, pelo que as propostas culturais têm que ser cada vez mais depuradas e qualificadas. Isso faz-se não apenas pelo reconhecimento dos pares, mas pelo assumir da função da crítica, infelizmente inexistente na nossa comunicação social.
6. Há que assumir que lidamos hoje com realidades novas, o que terá de reflectir-se na programação e nas práticas de cultura. A imposição do global ao local, a presença da imigração e do multicultural, o avanço das novas tecnologias e do digital, tudo isso impõe refazer, procurar e dar a ver novas cartografias para a cultura. É importante sair da concha do grupo e da concha da ilha, procurar outras práticas bem sucedidas, aceder a novas formas de conhecimento. Será fundamental a criação de redes, não apenas externas, mas também internas (universidade e autarquias, por exemplo).
7. Formar públicos leva tempo, e a promoção e difusão de cultura têm de contar com colaborações e parcerias concretas. Novas formas de participação podem conduzir a formas novas de cidadania. Por isso, nesta equação entre programação, mercado e públicos, algumas “virtudes” são inerentes ao trabalho na cultura: bom senso, sentido de escala, persistência, discernimento.
8. O Estado tem na cultura um papel incontornável: fazer serviço público, fazer aquilo que só o Estado pode (e compete) fazer. Não se pode eliminar a função financiadora do Estado, mas que tem de ser criteriosa, pela defesa da memória e pela promoção de uma verdadeira democracia no acesso aos bens culturais. Essa salvaguarda da memória tem de estar também orientada para o futuro, para a recriação da herança e das identidades, o que conduz à discussão do papel do Estado face à contemporaneidade, à criação e às artes. Não basta recuperar património, é preciso que as cidades sejam espaços vivos, é preciso captar artistas e eventos. Por isso, há que mudar de “paradigma” de desenvolvimento, agora reorientado para que seja a cultura a dar o tónus dominante. Isso exige mais esforços de cooperação e de gestão, mais conhecimento por parte dos agentes e entidades da cultura.
9. À questão colocada: “Como sair daqui? Como levar para fora o que de bom se faz cá dentro?”, há que responder que temos de saber ensaiar a nossa oferta cultural no diálogo das identidades diversas. Só assumindo-se a cultura como uma ampla oferta de diversidades exemplares, pode a Madeira mostrar lá fora o que a identifica, nessa figuração fazendo valer a memória, e a criação contemporânea. Uma nova “embaixada cultural” que, qual Funchália, seja, em Lisboa ou em Bruxelas, o modo como hoje podemos mostrar a herança que nos honra.
10. Tudo isto leva-nos a assumir este Fórum sobretudo como um ponto de partida, em que os contributos apresentados têm que ser retomados em especialização e aprofundamento: menos abrangência, maior concretização. Num cenário de grandes mudanças e de crise financeira, como fazer e divulgar o que se tem por mais importante, dando a ver, cá dentro e lá fora, o que nos distingue como comunidade e presença histórica de uma cultura atlântica? Aqui entronca, também, a questão do turismo cultural: porque a cultura lida com o lazer e os públicos, com os conteúdos e os destinatários, há que colocar correctamente a articulação da cultura com o turismo. A cultura tem que ser trabalhada como algo que subsiste e vale por si. A imagem, o lugar que criamos culturalmente, faz-se com e para a população. E só nessa mediação de verdade e simbolismo, porque ela faz a diferença no horizonte das muitas culturas, é que a cultura pode atrair visitantes. O turismo é um vector fundamental da economia, mas temos tudo a ganhar se a cultura for pensada por si mesma e não em função de “terceiros”.
11. Em conclusão final: o Fórum tornou mais clara e visível a necessidade de a cultura assumir-se como algo que, hoje, tem cada vez mais a ver com tarefas de gestão, definição de uma estratégia, construção de redes, planeamento de conteúdos, profissionalização da oferta. Cabendo à tutela, sobretudo, tarefas de apoio técnico e de coordenação, articulando os sectores públicos e privado em ordem à construção de uma nova oferta cultural, contributo para novas formas de cidadania.
João Henrique G. da Silva
Director Regional dos Assuntos Culturais